Saneamento e mudanças climáticas na Cidade Maravilhosa

 

 

Presidente da Abenc-RJ e secretário municipal de Habitação do Rio de Janeiro, eng. civ. Cláudio Dutra: novas perspectivas para a profissão e para os profissionais diante do desafio dos eventos extremos
Presidente da Abenc-RJ e secretário municipal de Habitação do Rio de Janeiro, eng. civ. Cláudio Dutra: novas perspectivas para a profissão e para os profissionais diante do desafio dos eventos extremos

 

 

Brasília, 14 de agosto de 2026.

Funcionário de carreira, o engenheiro civil Cláudio Dutra aceitou, no final de março, o desafio de assumir a Secretaria de Habitação do município do Rio de Janeiro. Paralelamente, ele é presidente da Associação Brasileira de Engenheiros Civis (Abenc-RJ), por meio da qual tem representação junto ao Colégio de Entidades Nacionais (Cden). Aa seguir, ele será o segundo entrevistado da série sobre Saneamento e Eventos Extremos, iniciada com a diretora Mickaela Midon, da Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambientação (Abes-RJ).

Especialista em Engenharia de Custos pelo Instituto Brasileiro de Engenharia de Custos (IBEC)  e mestre pela Universidade Federal Fluminense (UFF), ele já ocupou a presidência do Instituto Estadual do Ambiente (INEA RJ) e da Fundação Rio-Águas (Instituto das Águas do Município do Rio de Janeiro), responsável pelo planejamento e obras de drenagem para evitar enchentes, além de fazer a manutenção de rios e canais na cidade. Também ocupou cargos e foi subsecretário da Secretaria de Ação Comunitária. Confira.

Confea - Qual a relação da cidade com os eventos extremos em relação ao saneamento?

Eng. civ. Cláudio Dutra - Militei todos esses meus 30 e poucos anos de saneamento na área de drenagem, esgoto, resíduos sólidos. Ao longo de todo esse tempo, a gente percebe como a questão climática influencia nas tomadas de decisão, mas a gente tem que agregar ao dia a dia da população e ao uso daquilo que ela recebe como infraestrutura. 

Por exemplo, a gestão dos resíduos sólidos impacta muito na vida de todo mundo. Nesses recentes eventos fortes, como chuvas torrenciais, vento, o que a gente vê mais na rua são lixos para todo lado, entupindo bueiros e gerando muito transtorno para a cidade. É aí que você percebe propriamente os efeitos do evento extremo. Quando faz uma obra de água, esgoto e drenagem, percebemos que já há uma rede, o que falta evoluir muito é a questão dos resíduos sólidos. 

Fizemos um projeto de reciclagem na Secretaria, que remunerava quem levasse lixo reciclável nos postos de coleta. Isso ganhou uma dimensão que começa a perceber na localidade a preocupação em separar porque o lixo vai render alguma coisa. Era um embrião, mas precisa ter uma amplitude maior nisso porque a grande questão de mudanças climáticas é justamente que elas devem ter continuidade.


Confea - A cidade está preparada para essas chuvas?

Eng. civ. Cláudio Dutra - Em termos de resiliência, a cidade está preparada, o tempo de resposta é muito bom. Mas, olhando pelo engenheiro civil que é responsável por essa estrutura e pelo projeto também, a gente precisa se voltar um pouco mais para a gestão dos resíduos sólidos. 
 

Além disso, é preciso de uma discussão um pouco mais aberta. A nossa legislação pensa na execução de infraestrutura, ao fazer um projeto de rede de esgotos para atender a mil famílias, e mais 20% para um crescimento ao longo de 10 anos. Isso não é mais a realidade. A chuva cai, e a quantidade de pessoas começa a crescer além do que era previsto, além do que previam os projetos que a gente calculou. As redes de drenagem são montadas para cinco ou dez anos. Mas, em alguns locais, a gente vê chuvas que já passam disso. A rede executada já está com um déficit por conta das mudanças climáticas e eventos que a gente vem tendo nos últimos anos. 


Quando fui presidente da Rio Águas pra cá, a cada ano, nos últimos oito ou nove anos, a gente vem tendo eventos maiores. Chuvas que não eram comuns. Um dia, até quatro dias seguidos de chuvas bem intensas. Então, precisamos repensar e rediscutir a execução dos nossos projetos. Repensar normas, isso precisa ser reavaliado por conta das condições extremas.
 

Confea - Como o senhor considera que vem sendo a mudança de cultura dos engenheiros civis para lidar com as situações relacionadas à resiliência e com outras formas de lidar com as mudanças climáticas?

Eng. civ. Cláudio Dutra - Os profissionais da engenharia, principalmente, aí me coloco nesse trecho de profissionais um pouco mais da antiga, têm uma certa resistência para a evolução da engenharia. E ela precisa ser analisada à luz da realidade que a gente viva hoje. Precisamos acompanhar, não dá para a gente hoje pensar em acompanhar uma rede de esgoto em que a população vá crescer 10%. Vamos trabalhar acima disso porque a gente acaba tendo consequências graves, trazendo prejuízos à população e ao poder público também.
 

Confea - Como contribuir para modificar essa relação? O acordo de cooperação técnica com o Crea, logo depois o senhor assumir, pode ajudar nisso?

 

Eng. civ. Cláudio Dutra - Historicamente, tenho convicção de que sem a engenharia, não há desenvolvimento em nenhum lugar do planeta. Penso que nós perdemos, ao longo dos últimos 50 anos, o protagonismo. Não só a Civil, perdeu o protagonismo na tomada de decisões importantes para a evolução da infraestrutura do país, do Estado, do município. Não consigo identificar onde isso se perdeu. Mas, hoje, a gente precisa que o Sistema Confea/Crea se fortaleça, tenha protagonismo nas condições políticas com deputados, vereadores que participem onde as decisões precisam ser tomadas. 
 

Quando assumi a presidência da Abenc, ela estava sem voz no Rio de Janeiro. O protagonismo da Engenharia Civil não tinha participação no Conselho do Crea, só uma cadeira, na eleição, no Clube de Engenharia. Os profissionais que têm a maior representatividade no Crea só tinham uma cadeira de conselheiro. E aí, faltava você se colocar à disposição para levantar o nome da instituição, levar os profissionais para dentro do Sistema. Fizemos reuniões, workshops e os próprios profissionais se animaram a voltar a participar. Temos hoje cinco cadeiras no Crea. Ano passado, fizemos o primeiro Congresso de Engenharia Civil na cidade. E esse ano, o segundo congresso. Tivemos cerca de 400 pessoas participando, um número expressivo, diante de como estava a Abenc-RJ, mas, para mim, precisa realmente a engenharia tomar as rédeas e fazer parte do protagonismo para o Estado. 

Além disso, a gente precisa ter uma conexão dos profissionais experientes com os que estão saindo da faculdade. Quando me formei, não sabia como seria o contato com o Crea. E isso é corriqueiro ainda até hoje. Miguel (o presidente do Crea-RJ, eng. civ. Miguel Fernández) criou o Crea Jovem e o Crea Júnior que vão às faculdades, fazem palestras, informam o que é o Sistema, a importância de pagar a anuidade. Isso precisa também ter uma fortificação e também uma conscientização para que a galera que sai da faculdade participe e seja um profissional com todas as responsabilidades e habilidades para assumir qualquer tipo de projeto.

 

Avanços e retrocessos da nova realidade brasileira são ponderados pelo engenheiro civil
Avanços e retrocessos da nova realidade brasileira são ponderados pelo engenheiro civil


 

Confea - O senhor percebe a nova geração mais preocupada com esse tema?

 

Eng. civ. Cláudio Dutra - A questão ambiental está muito em evidência, e no nosso dia a dia, hoje, a gente acaba tendo acesso a diversas informações, e a turma está muito consciente. Mesmo assim, a nossa questão cultural ainda não traz um protagonismo para que eu possa implantar um sistema de coleta seletiva porque está todo mundo acostumado com isso. Quer dizer, quando você vai falar do tema, as pessoas dizem que é legal, mas não separam em casa. A informação está chegando, agora, mas culturalmente isso não está sendo implementado porque as pessoas não estão acostumadas com isso. 
 


Existem incentivos, mas realmente tem que ter que se criar uma regra de que vai doer no bolso do condomínio, por exemplo. Precisa ter algum regramento para que condomínios e moradores que façam reciclagem correta, aquilo se reverta em descontos para o IPTU. A partir daí, vai começar a ter uma melhora. Recicla Comunidade era o nome do projeto que a gente implantou. E no entorno já não se via mais coisas jogadas no chão. A bonificação impulsiona. Mas precisa ter o protagonismo do engenheiro para isso funcionar.
 

Confea - Recentemente, temos passado por uma série de abordagens sobre o tema, inclusive relacionadas a uma mudança de perspectivas em que as favelas (comunidades) do país já estão preocupadas com os eventos extremos. O senhor acredita que o país conseguirá contemplar tantas frentes para preparar-se melhor para esse “enfrentamento”?
 

Eng. civ. Cláudio Dutra - O Brasil tem uma diversidade grande, de localidades, de clima. Situações severas no Sul, bem adversas no Nordeste. Esse enfrentamento, falando de Rio de Janeiro, o Rio de Janeiro está preparado para atuação com resiliência. Agora, a gente precisa estudar muito ainda o comportamento da população. Trabalho com comunidade há 30 anos. A pessoa tem que entender que a árvore segura a encosta. Se tira, a casa cai. Uma situação que é gerada basicamente pela própria pessoa, por necessidade de ter moradia, mas quando ela chega lá joga o lixo na canaleta de drenagem, o esgoto volta para a casa. 

 

Para a resiliência, estamos preparados, com um tempo de resposta muito bom. Mas para o dia a dia, precisa estudar o comportamento das pessoas. As pessoas tinham essa educação há 30 anos, e agora mudou, é algo mais completo para adaptar a engenharia à realidade de hoje. Hoje, não vou construir um prédio com apartamentos de 200 metros, como tem na orla do Flamengo. Hoje, são de 20 a 30 metros quadrados. Isso é muito de comportamento, da mudança de situação econômica. Isso precisa evoluir também quando a gente faz as intervenções dentro das comunidades também. 
 


Eu penso, como cidadão, que a população escolhe aqueles mais convenientes que entendam para governar o país, o estado e o município. Mas a minha condição é que as pessoas que se colocam para ser governantes precisam falar com os engenheiros para determinados assuntos, e com os advogados em outros. Com pessoas qualificadas para cada assunto. Puxando para o meu lado, hoje a minha posição é política, mas a minha escolha foi técnica. Acho que é por aí. É preciso um pouco mais disso para políticas públicas, como as de habitação, funcionarem. Para posições predominantemente técnicas, escolham pessoas capacitadas, e aí faz toda diferença.

Confea - Mas, voltando, essa parceria entre a Abenc-RJ e o Crea-RJ poderá ser importante para lidar também com essas questões relacionadas aos eventos extremos?


Eng. civ. Cláudio Dutra - É importante dizer que a nova gestão do Crea abriu novamente as portas para as entidades. A Abenc-RJ representa quase 70% dos profissionais, não tinha representatividade no conselho, e conversamos com o presidente Miguel, dizendo que precisamos da cooperação com o Crea. O Crea está fazendo cursos, palestras, estamos novamente reaproximados. No ano passado, falamos dos grandes projetos para o Rio de Janeiro, sobre a aplicação do BIM.

 

Esse ano,  em um dos debates que vamos fazer no próximo congresso, vamos trazer a discussão sobre o comportamento da engenharia em face das mudanças climáticas. Mudar normas, acima de determinada altura para determinada carga de vento. Hoje, a norma não atenderia. Então, isso precisa ser discutido porque possivelmente acontecerá mais vezes.

 

Confea - Depois da tragédia recorrente no Rio Grande do Sul, o senhor acredita que seja necessário buscar ampliar essa resiliência que o senhor afirma que o Rio já conta para outros tipos de eventos extremos a partir de agora?


Eng. civ. Cláudio Dutra - No Rio Grande do Sul, foi o contrário da cidade do Rio. Ele mostrou pouca resiliência, por um conjunto de fatores, além da chuva extrema: falta de manutenção na operação de comportas que não funcionaram etc. A previsibilidade faz parte da resiliência. Temos um centro de operações que transmite dados para a prefeitura. A cidade de Porto Alegre sofreu muito com isso também. Mesmo assim, fizemos um intercâmbio com eles para trocar experiências. 

 

Em 1988, a cidade do Rio ficou embaixo de água por uma semana. Hoje, quando chove, nessa região que é afeta a esse tipo de problemas, a cidade consegue voltar ao normal em 24 ou 48 horas. É muito estudo, muita informação e principalmente dispor dos dados necessários para daqui para a frente. Isso é que o Rio Grande do Sul vai ensinar para a gente. Isso não acontece de um ano para o outro. 
 

 

Confea - Uma experiência cumulativa que não se refere apenas aos engenheiros civis, mas ao encontro com outras modalidades e profissões.


 

Eng. civ. Cláudio Dutra - Esse conjunto de dados envolve de profissionais de várias áreas. Qualquer obra da engenharia executada precisa analisar indicadores de saúde, educação, de assistência social e até de cultura. Essas informações têm que ser dadas anteriormente, isso também foi uma mudança cultural. Tem que escutar os moradores após os eventos, falando das condições vistas durante a chuva, falando das consequências para a saúde. São dados que a gente precisa levar em conta para a execução de projetos de engenharia. 
 

 

 

Não posso abrir um buraco e colocar o tubo dentro, se a população não for orientada a não colocar o papel higiênico no vaso. Então, eu digo hoje, que não é só interdisciplinar, mas todo mundo tem que opinar, todos os profissionais e principalmente, a população. 
 

Abrindo um parêntesis. Estamos preparando as obras do PAC no Complexo do Alemão, contando com um convênio com a ONU Habitat para que eles possam fazer uma busca inicial anterior ao projeto de Engenharia. Oficinas, cursos de capacitação para trabalhar na obra. A amplitude do projeto de engenharia começa muito lá atrás. A gente teve que apreender essa cultura ao longo de 30, quase 40 anos. No dia a dia. Trocando a roda com o carro andando.

 

Além de interdisciplinar, a engenharia tem que trabalhar com diversos outros profissionais, diversas outras secretarias para trazer resultados. Habitação não é só construir casa, é levar infraestrutura para a população. Rede de água, drenagem, isso faz parte da habitação.

 

A Secretaria de Obras vai tratar da estrutura formal da cidade, com métodos mais tradicionais. Nós enfrentamos desafios como a acessibilidade. É uma especificidade. Para isso, é preciso conhecer e ter experiência. Para fazer a execução de infraestrutura, além da casa em si, levando dignidade e melhoria de habitação para essas pessoas.


Não adianta colocar um engenheiro acostumado a fazer prédio na favela. Tem que lidar com tiroteio, com condições diferentes. Tanto eu, como o secretário de Obras (engenheiro civil Wanderson Santos) somos funcionários da Prefeitura. A gente troca muitas experiências. Fazemos debates juntos para o pessoal saber como é o dia a dia. Trabalhar em uma comunidade é muito diferente. Você tem que ter talento. E tem que ter escuta. A pessoa está sofrida porque não tem uma condição boa, e a gente vai lá muda a casa dela, ela acaba brigando com quem está fazendo a obra. Tudo isso é escuta. 

As pessoas não estão acostumadas com o cuidado com o esgoto. Quando não tinha rede de esgoto, jogavam de qualquer jeito. O problema é que quando chega embaixo, vai para o rio ou para o tratamento. 
 

Antes, eu achava que tinha que ser esgoto para o esgoto, e chuva para o rio. Mas, olhando para o futuro, percebi que a gente não tem como mudar a cabeça da população. A gente hoje pensa, e já estamos mudando os projetos, em quando (tudo) chega no destino final, fazer a captação e levar para o tratamento adequado. Temos trechos da Lagoa de Jacarepaguá, da Baía da Guanabara, já com resultados desse tratamento, da mudança para a drenagem. Dei meu braço a torcer, fazendo a captação em tempo seco, interceptando e jogando para uma estação de tratamento. Com isso, 100 por cento do que ia direto para a Baía, esse esgoto passa a ir somente em dias que chove. Aí a gente tem a maioria do período do ano com a Baía em condição melhor. Isso foi uma mudança do meu paradigma. 

 

Valorização da engenharia civil é um dos passos a serem observados pelo Sistema, na visão de Cláudio Dutra
Valorização da engenharia civil é um dos passos a serem observados pelo Sistema, na visão de Cláudio Dutra

 

Confea - É preciso também adaptar as normas técnicas para esse novo cenário? 

Eng. civ. Cláudio Dutra - Sim. A norma diz o mínimo. Quando você calcula com o que está previsto, com um tempo de recorrência 10 anos... Ou seja, dada uma quantidade média de chuva, de 10 em 10 anos que vai transbordar. Aquilo vai me trazer uma rede de drenagem de 800 milímetros. Se eu for colocar o mesmo local com uma chuva de 20 anos, teria que colocar um tubo de 1000 milímetros.

Para a nova realidade, qualquer projeto não poderá ser inferior àquilo. E aí vira norma. Se eu apresentar uma rede de macrodrenagem com tempo de recorrência acima de 25 anos em um projeto, a Caixa não paga. O agente financiador não vai pagar o dobro, se pode executar pela metade. Mas é preciso mudar isso. Até para que isso também agregue segurança profissional. Felizmente, já existe margem para negociar, nas comissões, comitês, grupos de trabalho.
 

 

Henrique Nunes
Equipe de Comunicação do Confea